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Introdução:
Que é missão integral? O que envolve a missão da Igreja a ponto de investigarmos o que é mito e o que é realidade?

Na procura de respostas para estas e outras perguntas semelhantes é que este estudo veio a lume. Não é um trabalho original e nem exaustivo. Não é original porque missão integral já faz parte da discussão teológica da Igreja há algum tempo. Não é exaustivo porque o número de teólogos, missiólogos e pensadores que têm escrito e palestrado sobre a missão da Igreja, e em seus vários aspectos, é enorme. Um bom exemplo da diversidade da missão integral é o livro A Missão da Igreja, organizado pelo Dr. Valdir Steuernagel em 1994. Nele nada menos que 27 articulistas tratam da missão integral da Igreja. Mas existem muitos outros autores que não aparecem no livro de Steuernagel. Além disso, obras como as de René Padilla e Timóteo Carriker são dignas de nota, conforme observamos no capítulo sobre o conceito de missão integral da Igreja na teologia contemporânea. Por causa dessa variedade de autores foi preciso adotar alguns critérios, vez ou outra mencionados no corpo deste trabalho.

Nosso estudo divide-se em três capítulos principais. O primeiro trata da missão integral como mito e realidade propriamente dito. Os outros dois são uma explanação bíblico-teológica e pragmática do primeiro. Nosso objetivo é mostrar que a Igreja evangélica brasileira só pode ser verdadeiramente missionária quando no desempenho de sua missão integral.

I. O MITO E A REALIDADE DA
MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

1.1. O mito da missão integral da Igreja
O que poderíamos denominar de mito ou mitos na missão integral da Igreja? Após relativa pesquisa e análise cuidadosa deste assunto, chegamos à conclusão que dois pontos resumiriam bem o mito de missão integral da Igreja. O primeiro deles estaria relacionado a um debate que perdura já algum tempo na igreja evangélica mundial e na brasileira em particular, a saber, a polarização entre evangelização e a responsabilidade social da Igreja. O segundo mito estaria diretamente ligado à dicotomia humana, isto é, o ser humano considerado em partes separadas ao invés do todo. Alguns fatores que possibilitaram o surgimento desses mitos é o que veremos, também, neste capítulo.

a. O mito da polarização teológica

Que evangelização e responsabilidade social são verdades bíblicas para a Igreja de Jesus Cristo não há dúvida, ou pelo menos não deveria haver (1). Felizmente, a consciência social da igreja brasileira hoje parece ser maior do que algumas décadas atrás. Entretanto, se por um lado a Igreja vem melhorando em sua visão social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua concepção de missão integral, justamente porque ao se discutir prioridades (estamos falando apenas de evangelização e ação social) a igreja deixa de fazer bem uma e outra coisa.

Evangelização e responsabilidade social devem andar juntas como causa e efeito de uma mesma verdade evangélica. Com isso não queremos dizer que evangelização e ação social devam ser entendidas como sendo a mesma coisa. Por outro lado, também não estamos afirmando que sejam duas coisas diametralmente separadas. “Um ministério integral verdadeiro define a evangelização e a ação social como funcionalmente separadas, mas relacionalmente inseparáveis e necessárias para um ministério integral da igreja” (YAMAMORI, 1998, p. 14).

O relatório da Consulta Internacional realizada em Grand Rapids (EUA), presidida por John Stott em 1982, concluiu que na questão da primazia entre evangelização e ação social “a evangelização tem uma certa prioridade. Não estamos falando em prioridade temporal, mas em prioridade lógica, pois há situações em que o ministério social precisa vir primeiro” (STOTT, 1983, p. 23).

E na prática?

Na prática, como aconteceu no ministério público de Jesus, estas duas realidades (evangelização e ação social) são inseparáveis, pelo menos nas sociedades livres, e raramente teremos de optar entre uma e outra. Em lugar de estarem em competição, elas se sustentam e fortalecem mutuamente, numa espiral ascendente de preocupação crescente (STOTT, 1983, p. 23)

A discussão pouco louvável no meio cristão sobre a missão prioritária da Igreja no mundo também levou o comitê de Lausanne a elaborar uma declaração sóbria e amadurecida. Diz assim, em seus artigos, o chamado Pacto de Lausanne: “Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo” (O PACTO DE LAUSANNE, 1983, IV). E ainda:

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. (Idem, V) (Grifos nossos)

E mais: “A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta” (Idem, V).

Evangelização e responsabilidade social são partes integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na missão integral da Igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo (2).

Façamos, a seguir, uma rápida apresentação de dois grandes movimentos que contribuíram negativamente para o distanciamento da Igreja de sua missão integral.

O evangelho social e a teologia da libertação
A influência perniciosa e nefasta do liberalismo teológico do século XX, em particular das teologias do evangelho social e da libertação, foi um dos fatores que colaboraram para a polarização entre evangelização e a ação social no meio evangélico. O esforço de se combater a teologia do evangelho social e depois a teologia da libertação (por causa da ênfase social à parte do evangelho bíblico e de uma filosofia marxista, principalmente desta última), provocou um mal-estar na igreja brasileira. Resultado: No afã de se preservar o espiritual, a Igreja acabou se equivocando e não enxergou a mensagem social autêntica que o mesmo evangelho oferecia.

Se de um lado as teologias liberais mencionadas cometeram o pecado do social sem espiritualidade, a igreja evangélica brasileira, por outro lado, pecou na espiritualidade sem encarnação. Contudo, há de se admitir que, por sua vez, tanto o evangelho social quanto a teologia da libertação provocaram uma reação positiva na Igreja. A Igreja foi levada a refletir seus valores, dando uma reviravolta considerável nessa história toda. Hoje em dia, boa parte das igrejas brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e sem qualquer preocupação de ser rotulada e perseguida por isso, como ocorria em tempos atrás.

b. O mito da dicotomia humana

Ver o indivíduo completo, não dictomizado, é uma necessidade urgente em nossos dias, conforme veremos no decorrer deste estudo. Um dos maiores males cometidos na igreja evangélica brasileira de hoje é limitar o conceito de salvação, achando que Cristo veio salvar apenas a alma do homem ou da mulher.
O ser humano – homem ou mulher – é um todo e deveria sempre ser visto assim, como o é pela Bíblia. Partindo da perspectiva bíblica, o ser humano poderia ser definido como sendo ‘uma comunidade integrada de corpo e alma’ (STOTT, 1989, p. 38). Entretanto, a ausência da compreensão do indivíduo como ser integral, pela própria Igreja, tem levado a mesma a desvalorizar não somente o ser humano na sociedade, como também o próprio evangelho para o qual ela foi chamada a proclamar no mundo, pois, como salientou muito bem Manfred (1987, p. 59), “só existe fidelidade na evangelização quando existe fidelidade na missão integral da igreja”.

Veremos a seguir que pelo menos três fatores contribuíram negativamente para o surgimento do mito da dicotomia humana, isto é, o platonismo, a influência missionária européia e norte-americana e a teologia sistemática.

A influência missionária e da teologia sistemática
Norman L. Geisler (1985, p. 154) observa que parte do descuido do “homem total” tem sua origem na ênfase platônica não-cristã sobre a dualidade do ser humano. “Esta ênfase foi dirigida pelos cristãos na Idade Média e tem sido transmitida para o presente”. Em síntese o platonismo argumenta que o ser humano é essencialmente um ser espiritual e que apenas tem conexão funcional com um corpo que, na melhor das hipóteses, é um impedimento e, na pior, um grande mal. A correção deste erro está no ensino bíblico acerca da unidade essencial do ser humano.

Além da influência platônica, os missionários europeus e norte-americanos que aqui estiveram parece que não conseguiram passar adiante a idéia da missão integral. Nossa herança missionária é deveras espiritualista. O que é facilmente percebido nas mensagens bíblicas e hinos que os missionários nos legaram. Porém, isso não quer dizer que não houve qualquer tipo de envolvimento social, pelo contrário, a história da igreja brasileira registra dignos exemplos de missionários como Robert e Sarah Kalley, Ashbell Green Simonton e outros, que desempenharam um papel social muito grande em nosso país. Mas então, por que a igreja evangélica brasileira de modo geral não herdou a totalidade da visão desses bons exemplos de missionários, e durante tanto tempo vem caminhando lentamente na questão social? Pelo menos por três razões principais: Uma delas tratamos há pouco, isto é, a omissão da Igreja, até hoje sentida, por causa daquela reação ao evangelho social e à teologia da libertação. Outra razão é que a maioria dos missionários estrangeiros que aqui chegaram tendia para a corrente do evangelho individual (KRIEGER, In Teses,1988, pp. 39,40). Isso explica, embora não justifique, é claro, nosso espiritualismo desencarnado no campo social; o que, de certa forma, contribuiu para a difusão do evangelho social e principalmente da teologia da libertação em nosso país. Uma terceira razão foi observada pelo missiólogo norte-americano Timóteo Carriker, quando diz que boa parte dos missionários europeus e norte-americanos que aqui estiveram “realizaram o trabalho, ora nobre e sacrificial, ora dominador e paternalista, mas, com raríssimas exceções, não transmitiam a mesma visão missionária para as igrejas autóctones. Assim, deixaram a impressão de que missões é coisa que o Brasil recebe e não que faz (CARRIKER, 1993, p. 55). (Grifo nosso) (3)

Outro fator que infelizmente tem colaborado para a dicotomia humana é a teologia sistemática, independente de sua linha confessional. Embora a teologia sistemática seja uma tentativa interessante de organizar em um ou mais compêndios conceitos e pensamentos religiosos variados, é preciso ter cautela com a mesma. Bruce A. DEMAREST, em seu artigo Teologia Sistemática (In EHTIC1990, p. 515), faz uma advertência importante:

Alguns consideram a teologia sistemática como um depósito eterno e inalterável de verdades divinas. Embora as Escrituras sejam invioláveis, novos entendimentos teológicos e reformulações são necessários a cada geração. Primeiro: porque à medida que a linguagem e as formas culturais mudam, o conjunto da verdade cristã deve ser vestido em roupagens contemporâneas a fim de permanecer inteligível; e segundo: porque novas questões e problemas continuam a surgir para desafiar a igreja. Por isso, de tempos em tempos, o texto bíblico precisa ser reinterpretado e reaplicado ao contexto moderno.

No estudo da natureza do ser humano na teologia sistemática, na análise da questão corpo, alma e/ou espírito, e em seus conceitos dicotômicos e tricotômicos, perdeu-se de vista a perspectiva bíblica de que somos um todo. E, certamente, isto tem sido um dos fatores prejudiciais na compreensão da missão da Igreja.

1.2. A realidade da missão integral da Igreja
Em contrapartida ao mito da teologia de missão integral da Igreja, destaquemos dois fatores que, em nossa opinião, expressam bem a realidade dessa missão.

a. A missão da Igreja é holística e diaconal

Por mais óbvia que pareça esta afirmação, sabemos que a ortopraxia da missão integral não é tão óbvia como deveria ser. Não é fácil inculcar na cabeça do nosso povo que o envolvimento da Igreja deve ser total. Não só no que se refere ao indivíduo, mas também à criação de Deus em geral. Onde está, por exemplo, a consciência ecológica da Igreja? (4)

Além disso, a Igreja como sal da terra e luz do mundo deve fazer a diferença nos vários setores da sociedade, principalmente no socorro aos menos favorecidos.

A injustiça social, verdadeira afronta contra a imagem e semelhança de Deus, tem solapado nosso país e a Igreja muitas vezes tem se afastado como se nada tivesse com isso. É verdade que a Igreja não é uma instituição político-partidária que deva defender qualquer bandeira política. É mais que isso. Ela é uma instituição divina supra partidária. Por isso mesmo, tem o dever ético e moral de ser mais justa do que qualquer governo ou partido político pretenda ser. Conforme salientou Jorge GOULART (1941, p. 229), a Igreja “não prega uma forma de governo, mas cria uma consciência democrática, à luz dos conceitos de liberdade, de dignidade humana, de respeito ao próximo e, sobretudo, de amor a Deus e à humanidade”.

Os cristãos foram postos no mundo para ser a consciência da sociedade, como diria Orlando COSTAS (1979, p. 102). A Igreja deve ser a voz do que clama no deserto a fim de fazer a diferença no mundo. Precisa deixar o monte da transfiguração (entenda-se contemplação) e descer até ao sopé onde se encontram os excluídos. Uma opção preferencial pelos pobres? E por que não? O evangelho é para todos, porém, somente o pobre precisa ser atendido também em suas necessidades básicas prioritárias, por causa da má distribuição de renda de nosso país, como resultado de uma política social opressora.

Quando se coloca o pobre e o rico lado a lado, em se tratando de benefícios a serem recebidos, o primeiro sempre sai perdendo. É preciso sim que os pobres desse mundo recebam um tratamento preferencial porque foi assim que Deus os tratou na Bíblia, como veremos mais adiante.

Orlando Costas via nesta dimensão diaconal ou encarnacional da Igreja “a intensidade de serviço que a igreja presta ao mundo, como prova concreta do amor de Deus” (COSTAS, 1994, p. 113). E ainda:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada. (COSTAS, 1994, pp. 113,4).

b. A missão da Igreja é bíblica
Quando dizemos que a missão integral da Igreja é bíblica, significa que ela (a missão integral da Igreja) não é uma filosofia cega ou um modismo passageiro. A missão da Igreja não é filosofia e muito menos modismo. É uma verdade bíblica que precisa ser resgatada e praticada em sua totalidade. A Bíblia não existe para o deleite de nossa mente carnal. A Bíblia não incentiva nenhum blá-blá-blá teórico desinteressado. A Bíblia é doutrina e prática. A opção por apenas um desses seus aspectos (doutrina ou prática) causará profunda ojeriza em Deus. Sua Palavra é um todo, como um todo deve ser a missão integral de Sua Igreja.

A integralidade da Igreja é bíblica e se baseia na missão integral de Deus. A missão integral da Igreja é ampla, assim como é ampla a missão integral de Deus, visto que a dimensão dessa missão é vertical e horizontal. O compromisso da Igreja com Deus (vertical) resulta nela um compromisso com a criação em geral e com o ser humano em particular (horizontal). Não é por acaso que GRELLERT (1987, p. 22) resumiu a missão intergral da Igreja em “comunhão, adoração, edificação, evangelismo e serviço”.

No capítulo 2 desse estudo falaremos um pouco mais sobre a base bíblica da missão integral da Igreja.

II. A BASE BÍBLICA E TEOLÓGICA DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

2.1. A missão integral na Bíblia
A missão integral tem raízes bíblicas profundas. Tetsunao YAMAMORI (1998, p. 15) salienta:

Tanto no Antigo como no Novo Testamentos a Bíblia ordena à igreja que ministre à pessoa como um todo. Isto quer dizer que se deve atender tanto às necessidades físicas como às espirituais, que estão inseparavelmente relacionadas, ainda que sejam separadas em termos funcionais.

No capítulo anterior mencionamos que a missão integral da Igreja é ampla. Isso é verdade. Por isso mesmo nosso objetivo agora será tratar, à luz da Bíblia, apenas de um dos aspectos da missão integral, isto é, aquele que está diretamente relacionado à pessoa do indivíduo ou, mais especificamente, aos pobres deste mundo. “Nada é mais claro na Bíblia do que ser Deus o campeão dos pobres, dos oprimidos e dos explorados”. (BRYANT, 1988, p. 56).

Segue abaixo uma abordagem resumida sobre o assunto.

a. No Antigo Testamento

Se folhearmos as páginas do Antigo Testamento veremos que existe uma clara opção preferencial de Deus pelos pobres e oprimidos. Isto não significa que Deus faça acepção de pessoas ou de classe social. De modo algum! Mas com certeza Ele olha de maneira especial para aqueles que não têm vez, que não têm voz. Só no AT nós temos 300 referências sobre causas, realidade e conseqüências da pobreza. Vinte e cinco palavras hebraicas para falar do oprimido, do humilhado, do desesperado, do que clama por justiça, do fraco, do desamparado, do destituído, do carente, o pobre, a viúva, o órfão, o estrangeiro. Em Isaías 58.3-8, quando o povo de Deus pergunta: “Por que é que nós oramos e jejuamos e tu não nos respondes?”, Deus diz: “É porque vocês jejuam e oram para a iniqüidade, vocês estão oprimindo os pobres, e seus próprios operários, e o jejum que eu quero, é que vocês cortem as ligaduras da impiedade, é que ajam com justiça em relação aos desamparados”. Veja também Isaías 1.17; 10.1,2.

Ezequiel 16.49 afirma que o pecado de Sodoma, além do orgulho, da vaidade e da imoralidade era que aquela cidade, sendo rica e abastada, nunca atendeu o pobre e o necessitado. Se olharmos na legislação do povo de Deus no Velho Testamento, veremos que o objetivo de toda a legislação era que não houvesse miseráveis e injustiçados no meio do povo de Israel.

b. No Novo Testamento

Jesus Cristo é a revelação máxima da missão integral de Deus no mundo. No início de seu ministério terreno o Senhor Jesus deixou bem clara a sua missão quando declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19). O cuidado de Jesus com os pobres e marginalizados é enorme. “Nós nunca encontramos Jesus Cristo de dedo apontado contra os pobres e marginalizados, mas enfrentando exatamente aqueles que oprimiam o povo, quer pelo sistema religioso, quer pelo sistema econômico, ou sistema político de sua própria época”. (MACEDO FILHO, 1988, p. 35).

Em Mateus 4.23 lemos também: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”. E ainda em Mateus (cap. 25) notamos que além da questão do se “fazer igualmente a Cristo”, a nossa atitude para com os desfavorecidos deste mundo será um critério importante de julgamento no Juízo Final.

Os apóstolos deram continuidade ao tema da missão integral de Jesus em seus ministérios. Veja por exemplo Atos 5 e 6.

Em Jerusalém as três colunas do colégio apostólico (Pedro, Tiago e João) recomendaram a Paulo e a Barnabé que não se esquecessem dos pobres, “o que também me esforcei por fazer”, diz o apóstolo em Gálatas 2.10.

Várias igrejas foram orientadas por cartas a agirem com a mesma visão de integralidade bíblica dos apóstolos. Destacamos, dentre outras, as igrejas de Corinto (II Co 8 e 9), da Galácia (Gl 6.2-10) e das doze tribos da dispersão (Tg 2. 1-7,14-26; 5.1-6).

2.2. A missão integral na teologia contemporânea
O número de teólogos que escreveram e escrevem sobre a missão integral da Igreja não é pequeno. Um bom exemplo disso é a obra do Dr. Valdir Steuernagel em que ele reúne nada menos que 27 autores. Falar do trabalho de cada um desses autores, sem considerar outro tanto que Steuernagel não menciona, seria simplesmente impossível para as dimensões do nosso trabalho. Estou tomando, então, a liberdade de selecionar apenas dois deles, a saber, Timóteo Carriker e René Padilla, e explico porquê. Em primeiro lugar, nossos dois teólogos são duas das maiores autoridades mundiais sobre a missão integral da Igreja. Em segundo lugar, cada um deles escreveu um livro com o mesmo título (Missão Integral) com cerca de 300 páginas cada. Em terceiro lugar, vale a pena conferir a ênfase e a abordagem distintas que ambos conferem em seus respectivos livros acerca da missão integral da Igreja.

a. O conceito de Timóteo Carriker

O livro de Timóteo Carriker é uma teologia bíblica de missões. Seu objetivo é ressaltar as diversas dimensões, na palavra de Deus, da identidade e tarefa missionárias do povo de Deus (1992, p. 11). A seguir exporemos alguns dos principais conceitos da missão integral de Carriker.

No Antigo Testamento Javé é o Deus soberano sobre toda a sua criação. Esta imagem de Deus está no coração do Novo Testamento também. Um Deus soberano e misericordioso é o ator último das parábolas de Jesus. É este Deus salvador que alcança além das leis judaicas. Sua aproximação do homem exige a atitude de conversão. O seu reino tem um escopo universal até cósmico. Os marginalizados, mulheres, samaritanos, e gentios recebem a misericórdia de Deus.

Deus tem um plano salvífico que alcança tanto judeu quanto gentio, e Ele vai cumpri-lo. A confiança no cumprimento do seu plano dá a igreja motivação para perseverar até o fim.

A igreja, contudo, não fica passiva em relação à soberania de Deus. Reconhecer que a missão é essencialmente de Deus, missio Dei, não significa que a participação da igreja na evangelização mundial tem pouca significância. Muito pelo contrário, a missio Dei exige os missiones eclesiae. São praticamente dois lados da mesma moeda.

O Deus da Bíblia é o Deus que age na história. Não é principalmente apresentado como um conceito ou idéia, uma doutrina que podemos elaborar. Ele é, acima de tudo, pessoal e age nos eventos e experiências concretas das nossas vidas. Deus não se restringe a uma dimensão mística da nossa vida. Atua através do êxodo, do dilúvio e do cativeiro no Velho Testamento, todos eventos históricos até “seculares”. Ele atua através da vida humana do seu filho Jesus, através da sua morte e ressurreição, eventos bem visíveis que fazem parte da nossa história.

É na nossa história humana que Deus se revela e o faz com movimento para frente. Percebemos, através da história, a sua conclusão. Assim, a perspectiva cristã da história é essencialmente escatológica. A humanidade está indo na direção do cumprimento, julgamento e salvação, e este movimento entrou na sua fase final com a ressurreição de Cristo. Hoje é o dia da salvação.

b. O conceito de René Padilla

A abordagem de René Padilla é mais teológica e menos bíblica. Por “mais teológica” queremos dizer que os argumentos de Padilla estão mais na área das idéias, o que não diminui, de modo algum, o valor da obra dele. Por “menos bíblica” queremos afirmar que o livro de Padilla não é uma teologia bíblica nos moldes do livro de Timóteo Carriker, porém, seus princípios são eminentemente bíblicos. Apesar de não termos o objetivo de comparar os dois autores, vale ressaltar que as aplicações de Padilla são mais contextualizadas que as de Carriker.

Padilla desenvolve seu tratado em termos de desafios. Diz ele que o maior desafio que a igreja enfrenta atualmente é o desafio da missão integral (1992, p. 139).

O desafio da missão integral, por sua vez, subdivide-se em outros três, a saber: O desafio da evangelização e do discipulado, o desafio da colaboração e da unidade e o desafio do desenvolvimento e da justiça. Seus argumentos principais são os seguintes:

Um conceito um tanto romântico da obra missionária impulsionou as missões a concentrarem seu esforço em pequenas tribos nas selvas, esquecendo-se das cidades. A “explosão urbana” é um fenômeno mundial. A missão urbana, portanto, é uma prioridade em todas as partes. Lá, na cidade, com todo seu poder desumanizante, vê-se com clareza a necessidade de um evangelho com poder para transformar a totalidade da vida. Num mundo que está se urbanizando rapidamente, a cidade é, sem dúvida, o símbolo do desafio que a evangelização e o discipulado colocam para a igreja.

Porque há um mundo, uma igreja e um evangelho, a missão cristã não pode ser outra coisa que missão realizada em colaboração mútua. Chegou o momento de encontrar maneiras de reduzir a distância entre as igrejas no Ocidente e no Terceiro Mundo. Já há experiências úteis que estão sendo levadas a cabo com este propósito, mas é necessário fazer muito mais para desenvolver modelos de solidariedade acima das barreiras políticas, econômicas, sociais e culturais, e para estimular a colaboração mútua entre as igrejas.

O desafio que a igreja encara no campo de desenvolvimento hoje é fundamentalmente o desafio de um desenvolvimento humano, no contexto da justiça. Fazem falta modelos de missão plenamente adaptados a uma situação marcada por uma distância abismal entre ricos e pobres. Os modelos de missão baseados na riqueza do Ocidente solidarizam-se com esta situação de injustiça e condenam as igrejas do mundo pobre a uma permanente dependência. No final das contas, portanto, são contraproducentes para a missão.

O desafio tanto para os cristãos no Ocidente como para os cristãos nos países subdesenvolvidos é criar modelos de missão centrados num estilo de vida profético, modelos que apontem para Jesus Cristo como Senhor da totalidade da vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no mundo.

III. OS DESAFIOS E IMPLICAÇÕES DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

3.1. Desafios da missão integral da Igreja
Observamos no capítulo anterior que René Padilla apresenta a missão integral da Igreja em termos de desafios. Entretanto, sua abordagem é ampla, no sentido de envolver a missão da Igreja num âmbito mundial ou, no mínimo, na América Latina. Os desafios que agora mencionaremos tratam da igreja brasileira em solo brasileiro. Dividimo-nos em duas partes distintas, isto é, os desafios sociais e os desafios eclesiais.

a. Os desafios sociais da Igreja

Não são poucos e nem pequenos os problemas sociais brasileiros. A igreja evangélica brasileira tem desafios enormes nesta área. Porém, de início é preciso que encaremos com seriedade e maturidade o dilema de até onde podemos e devemos nos envolver nestes desafios. Que a igreja evangélica brasileira não deve se esquivar de sua missão integral, é o nosso comum acordo com a declaração de Lausanne:

Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão.

É preciso sim que a Igreja seja a consciência da sociedade e a voz profética que denuncia os desmandos desta mesma sociedade. Não devemos, como Igreja de Cristo, partir para a ignorância e violência, mas podemos e devemos fazer confrontações sociais sérias. Confrontação não é violência. Robert C. Linthicum (1996, pp. 171,2) explica:

Há muita confusão sobre a natureza da confrontação e da violência. Confrontação é simplesmente a atividade entre seres humanos na qual eles discordam, e devido a esta discordância, estão desafiando uns aos outros. A palavra significa literalmente “testa-a-testa” – isto é, as testas colocadas fisicamente uma contra-a-outra. É um encontro face a face, direto, procurando o fim da resolução.

Por outro lado, violência é o exercício da força física, a fim de ganhar uma disputa. Enquanto a confrontação é verbal, a violência é física. De uma forma mais profunda, essas palavras não são sinônimas, e sim antônimas, pois, em sua própria natureza, um ato de violência é a indicação de que a confrontação falhou. A confrontação boa e eficaz nunca deve levar à violência, mas à resolução do problema.

É nesse espírito de verdadeira confrontação que a Igreja deve encarar seus desafios sociais, com propostas terapêuticas para uma sociedade enferma. Portanto, empenhemos-nos pela dignidade do povo brasileiro. Reivindiquemos, pois, os seus e os nossos direitos: Saúde, segurança, educação, trabalho e salário digno.

E até onde podemos e devemos ir nesta questão toda? Até onde os direitos sejam verdadeiramente assegurados, o amor ao próximo evidenciado, a moral dignificada, o evangelho e o bom testemunho não sejam prejudicados e, sobretudo, o nome de Jesus seja glorificado.

O governo tem (e como tem!) suas culpas e responsabilidades, mas não podemos ficar indiferentes ao que ocorre em nossa volta, simplesmente criticando por criticar o governo. Pesa (e como pesa!) sobre o povo de Deus também a responsabilidade pelo bem-estar social do nosso país.

b. Os desafios eclesiais da Igreja

Certamente um dos maiores desafios da igreja brasileira na atualidade é vencer seus próprios desafios. Tentarei explicar esta minha tese.

Os desafios sociais da igreja brasileira não são combatidos e vencidos como deveriam porque falta vontade eclesiástica por parte da mesma. Ou porque a liderança não se empenha, ou porque os liderados não se envolvem na obra. O certo é: Se não chegarmos a um consenso; se não juntarmos forças, jamais sairemos do lugar comum. Continuaremos marcando passo, salgando a nós mesmos e iluminando nossos umbigos.

Uma lição é preciso aprender com a igreja de Jerusalém. A igreja de Jerusalém estava consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus propósitos e se amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo, desejosa de pregar o evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém, externamente os desafios eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e muita gente se levantaram contra a Igreja de Deus. Então a Igreja orou: “agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes as mãos para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 4.29,30).

E Deus atendeu ao clamor de sua Igreja (At 4.31). Atendeu porque a Igreja deixou de lado seus próprios interesses para servir ao mundo. Hoje, o que muito se vê, à nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não fazer a obra do Senhor. Externamente desfruta-se de uma liberdade religiosa como nunca se viu, mas internamente muito de nossas igrejas estão enfermas, quando na verdade eram elas que deveriam estar curando!

A seguir daremos duas sugestões práticas para que esse quadro sombrio possa se reverter.

3.2. Implicações da missão integral da Igreja
As implicações que aqui abordaremos não deixam de ser verdadeiros desafios para a igreja brasileira, porém, entendemos que estes desafios são implicações naturais para uma igreja que queira verdadeiramente cumprir sua missão integral.

a. A revisão de estruturas não-funcionais

O que muito tem contribuído para um mau desempenho da Igreja em sua missão integral é a falta de estruturas que funcionem. Estruturas enrijecidas pelo tradicionalismo matam ou impedem a visão de uma igreja.

A quebra de paradigmas é uma das coisas fundamentais para que a estrutura de uma igreja se torne funcional. Às vezes é preciso muita coragem para mudar certos parâmetros que já não funcionam mais. À primeira vista parece fácil mudar aquilo que se tornou obsoleto, mas não é tão simples assim. Antes é preciso mudar a mentalidade dos acomodados e principalmente dos saudosistas, daqueles que confundem inovação com inovacionismo, tradição com tradicionalismo. O que está “matando” muito crente novo (e velho também) é a igreja não-funcional, que se limita a suas atividades internas, fechada em quatro paredes.

Contudo, por uma questão de prudência e respeito àqueles que não pensam como nós, é preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias devem ser amadurecidas no meio da comunidade, sem atropelos, mas progressivamente.

Uma coisa aprendi em meus poucos anos de ministério pastoral: Se a igreja não comprar a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar que conseguiremos qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do sucesso.

b. A reafirmação do compromisso missionário

Aquelas igrejas que um dia receberam orientação missionária, se não forem constantemente lembradas daquele compromisso, rapidamente minguarão.

E como revitalizar uma igreja que começou com tanto entusiasmo por missões e de repente esfriou? Em primeiro lugar é preciso reconscientizar a igreja de sua missão no mundo. Em segundo lugar é preciso conscientizá-la de que ela está no mundo para servir o mundo integralmente.

Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos bíblicos missionários, filmes específicos como As Primícias, Etal e Atrás do Sol, além do auxílio de uma boa agência ou junta missionária, com certeza produzirão novo alento. Geralmente a frieza por missões acontece por causa da rotina. Uma vez que o mal foi detectado é necessário que seja combatido com atividades variadas.

O mais importante é que a igreja seja cientificada de que sua missão no mundo é integral. Evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam, mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por isso mesmo, a Igreja nunca deveria deixar se levar pela prática do paternalismo e assistencialismo paliativos, porém, deveria partir sempre para uma ação social transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai.

Cada igreja deve refletir sobre sua motivação em praticar evangelismo e ação social, e todas as atividades nestas direções devem estar debaixo do serviço a Deus em primeiro lugar (A. C. BARRO, sem data, p. 5). O ponto de partida é o parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:
A missão integral da Igreja é basicamente evangelização e ação social. Dizemos “basicamente” porque a missão integral da Igreja é na verdade universal. Abrange vários aspectos. Evangelizar é a sua qualidade primordial. A Igreja que troca a evangelização por qualquer outra responsabilidade social está fora de propósito e, portanto, descaracterizada como igreja de Jesus Cristo. Por outro lado, que nenhuma igreja pense ser mais espiritual porque optou pela evangelização. Concordamos que uma igreja possa fazer uma opção temporária entre evangelizar e assistir ao necessitado, mas nunca uma opção permanente. A verdadeira espiritualidade do povo de Deus se expressa em sua integralidade. A mesma igreja que proclama as boas novas do reino deve ser a mesma que estende a mão ao necessitado.

Missão integral é uma realidade bíblica. Os mitos não fazem sentido quando são resultados baratos de um reducionismo evangélico, polarização entre evangelização e ação social, e quando se deixa de contemplar o indivíduo em sua totalidade. Os mitos (pelo menos os que aqui estudamos) deturpam a missão integral da Igreja.

Se queremos atentar para o ensino bíblico, então devemos almejar por uma igreja brasileira autêntica, que não seja ela mesma um mito, mas a realidade bíblica de uma missão integral em nossa sociedade.

Rev. Josivaldo de França Pereira

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