Uma Igreja Relevante

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Sempre que ouço uma pergunta sobre como uma igreja pode ser relevante para a sociedade eu respondo: “o que está igreja tem a ver com a comunidade onde ela está inserida?

Esse é um tipo de pergunta que frequentemente na congregação onde trabalho eu me pego a fazer, de que forma, como igreja, podemos ser útil a sociedade? Certa vez, um visitante me falou que a igreja para ele, era um lugar onde ele esperava ser acolhido, com as suas dores e da maneira como ele se encontrava.

Acredito que respondendo questões como essas, que o evangelho deveria ser pregado nas igrejas, uma palavra de acolhimento, uma palavra de cura, de forma que atinja o homem no momento em que ele está de uma linguagem que ele entenda, num ambiente que tenha a ver com a cultura dele e que ele já esteja habituado. Se a igreja quer alcançar as pessoas a sua volta, ela precisa saber como ela deve apresentar o evangelho de uma forma relevante, tanto em seu conteúdo, quanto em sua forma.

Jesus, quando falava com as pessoas, ele sempre abordava as pessoas com uma linguagem que conseguia atingir a pessoa e ela entendia o que Jesus falava. Foi assim com Nicodemos, que Jesus o fez perceber o quanto ele precisava de um salvador para a sua vida. Foi assim com a mulher Samaritana, Jesus a fez sentir a necessidade da água da vida.

Todas as abordagens de Jesus eram dessa maneira, Jesus apresentava para as pessoas um evangelho relevante e contextualizado para a sua época. Isso se dava na forma como ele se relacionava com as pessoas, utilizando uma linguagem apropriada para cada pessoa, dessa forma elas entendiam o que Jesus queria dizer e o evangelho tocava naquilo que era significativo para essas pessoas.

Portanto, ser uma igreja relevante para a sociedade, ou ser uma igreja relevante onde ela está inserida é ser uma igreja contextualizada, é trazer o evangelho para dentro da vida das pessoas, seja na oficina mecânica, seja cozinha de uma mulher. Ser uma igreja relevante e contextualizada é levar o evangelho para a casa das famílias que enfrentam crises, seja porque um dos filhos revelou ser usuário de drogas, seja porque o marido pensa no divórcio. As pessoas estão famintas por esse evangelho, um evangelho que possa “funcionar” e resolver a situação delas.

Uma igreja relevante e a sua relevância

A passagem de Lucas 24.13-35 nos ajuda a poder entender um pouco sobre a vida e ministério de Jesus e o que as pessoas pensavam. Quando Jesus encontra aquelas duas pessoas no caminho para Emaús, ele já havia cumprido o seu ministério aqui na terra, ele já havia feito milagres, curas. No entanto, o que uma das pessoas disse, Cleopas, podemos entender como as pessoas viam a respeito do ministério de Jesus e o legado que ficou para os seus seguidores.

Cléopas definiu Jesus como um “homem profeta, poderoso em atos e palavras”. Acredito que a Igreja de Cristo deveria ser reconhecida de maneira semelhante, uma igreja profética, poderosa em atitudes e em palavras. Nós fomos chamados para servir aos homens, como representantes do Reino de Deus. Isso implica que devemos expressar Cristo para as pessoas em todas as dimensões possíveis e nas mais variadas formas.

A Igreja de Cristo, ela deve ser reconhecida como sendo uma igreja poderosa em atos e palavras, tanto no serviço comunitário quanto no testemunho e proclamação da palavra de Deus, através dos sinais, atos de justiça e das suas obras.

Percebemos no entanto, que hoje, temos uma grande quantidade de igrejas cheias de gente, mas irrelevantes para a sociedade. Igrejas onde:

  • Não realizam serviços comunitários;
  • São voltadas para programações internas;
  • Os seus posicionamentos públicos são apenas para o seu próprio interesse;
  • Os ministérios existem, tão somente para alimentarem a própria estrutura da igreja;
  • O engajamento de seus líderes e membresia não é para serviços sociais e transformadores;

Ser uma igreja relevante é ser uma atenta ao que acontece, é ser uma igreja ativa na evangelização e na ação social, é ser uma igreja que serve as pessoas, é ser uma igreja que pratica o evangelho de Cristo, é ser uma igreja que contextualiza a Palavra de Deus, é ser uma igreja que procura expressar o Corpo de Cristo através de suas ações, é uma igreja que encarna a palavra.

Uma igreja relevante é uma igreja que a todo o momento está perguntando quais as necessidades daqueles a quem ela foi chamada para servir. Uma igreja relevante ela consegue diferenciar ela promove o Reino de Deus no meio onde ela está inserida, ela quer ser o sal e a luz na sociedade.

Como igreja, devemos trabalhar para que não aja injustiças sociais, devemos ser agentes de transformação, não somente espiritual, mas social também.

Uma igreja relevante é aquela igreja que é do bairro e para o bairro, ela trabalhar focalizando nas necessidades dos seus moradores, promovendo a Palavra de Deus através de ações práticas.

A vocação de uma igreja relevante é fazer a coisa certa, no momento certo, demonstrando o amor de Deus as pessoas, de forma prática e incondicional.

A Igreja e sua missão

Como cristãos brasileiros, preocupados tanto com a missão da igreja quanto com a difícil realidade socioeconômica do país, devemos levar a sério os desafios desses líderes do passado e da nossa história recente que falam com convicção, coerência e clareza sobre a necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como agente e instrumento de Deus.

A atitude e as ações de Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus Cristo, são os nossos grandes paradigmas de missão. A Bíblia fala de um Deus que toma a iniciativa, que busca a humanidade com amor e com compaixão, que quer dar vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária por Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus por todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral. Nesta visão, fundamentada no pacto de Lausanne, entre a Teologia da Libertação e o Neofundamentalismo, uma nova geração de pastores e líderes tem optado pela Teologia da Missão Integral da Igreja.

A missão integral enfatiza de modo claro que a evangelização e a ação social não se separam, tornando-se necessário pregar Jesus Cristo como Senhor e Salvador de forma verbal e prática – verbal no que tange à Palavra de Deus e ao plano salvífico de Jesus (para restauração, transformação, libertação e cura do homem e da mulher, ou seja, de toda humanidade através do poder do Espírito Santo na vida espiritual e no relacionamento com Deus); e prática quanto ao testemunho de amor e vida de Jesus, na ação física solidária para com as necessidades dos pobres e marginalizados, trazendo restauração, transformação, libertação e cura no viver do próximo dentro da sociedade, através do Espírito Santo no contato pessoal e social.

Por conseguinte, a missão integral reflete o cuidado e os propósitos de Deus pela pessoa como um todo, alcançando as quatro esferas do crescimento de Jesus –  sabedoria (aplicação de verdades bíblicas na vida), estatura (atendimento de necessidades físicas), graça diante de Deus (ministério espiritual) e graça diante dos homens (atendimento social). Isso em reconhecimento ao quanto ELE é importante, amoroso e capaz de transformar vidas, igrejas, comunidades e nações, fundamentando-se nos mandamentos bíblicos de Jesus de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, demonstrando um estilo de vida de amor desempenhado por igrejas e indivíduos seguidores de Jesus, os quais demonstram a compaixão divina pelo seu próximo. Logo, a missão social defende um evangelismo que atinja as pessoas como um todo, na vida espiritual e física.

As mudanças sociais, portanto, virão pela mudança da sociedade – a mudança de cada indivíduo e de suas estruturas com o testemunho evangélico. A missão integral chama a igreja a uma atitude diferente para com a missão. Em nosso contexto, as igrejas evangélicas estavam dirigidas somente para a salvação da alma, oferecendo a reconciliação com Deus por meio de Jesus Cristo, deixando de lado as necessidades do corpo e a reconciliação do ser humano e seu próximo. Proclamavam a justificação pela fé e omitiam a justiça social enraizada no amor de Deus pelos pobres, buscando sempre o crescimento numérico de membros, transformando o evangelho em uma mensagem para o indivíduo e a vida privada, mas não para a sociedade e a vida pública. Todavia, Jesus nos oferece o modelo perfeito de serviço e envia sua igreja para ser uma igreja serva, sendo a missão de Cristo a missão da igreja, de se entregar pelo próximo por amor. “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”.(Jo 17:18).

A missão integral nos chama a identificar-nos com o mundo sem perder nossa identidade cristã. Significa conhecer a situação que nos rodeia e as pessoas que iremos servir, fazendo o melhor por elas como pessoas no mundo, amando a Deus e ao próximo; significa conviver com as pessoas com quem Deus se preocupa e nos enviou; significa compartilhar o evangelho em sua compreensão integral, lutando pela justiça e paz, se debruçando nas necessidades humanas; significa comprometer-se com a vontade de Deus e com as pessoas.

A missão integral busca ter relação com todo ser humano e com o ser humano todo, dando ao evangelho uma dimensão de espiritualidade e ação social com integridade ética, trazendo o crescimento integral da missão e da igreja, avaliando os crescimentos numérico, orgânico, conceitual e diaconal, com um modelo de crescimento integral qualitativo a partir da espiritualidade, encarnação e fidelidade, ao que Yanamori, Padilha e Rake complementaram:

Como comunidade do Espírito, ela deve crescer em santidade e comunhão. Como corpo de Cristo, deve crescer em apostolicidade (missão) e unidade. Como povo de Deus, ela deve crescer em fidelidade à atuação de Deus na história e na celebração dos seus feitos maravilhosos.[1]

Dentro da missão integral, encontramos vários modelos de ministérios que trabalham a evangelização e ação social, entre eles destacamos o trabalho de células realizado nas igrejas do Peru, onde os participantes se tornam mais sensíveis às necessidades de seu próximo, levantando recursos para socorrer órfãos e doentes, abrindo pequenos postos de primeiro socorros, gerando mudança na forma de agir e no testemunho das pessoas, trazendo crescimento e fortalecimento na fé e gerando práticas solidárias com seus vizinhos, estabelecendo assim o crescimento integral das igrejas.

Entretanto, com a perspectiva evangélica, a evangelização, o convidar os indivíduos, as famílias e as comunidades à reconciliação e nova vida em Jesus Cristo, certamente é básica e essencial. Mas a preocupação com prioridades, praticidade ou, muitas vezes, estatística e resultados rápidos não devem cegar a igreja para a integridade da missão, o propósito total de Deus para a humanidade e para a comunidade redimida. À medida que a igreja evangeliza, ela também precisa expressar o interesse de Deus por toda a vida e espelhar a atitude daquele que disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10:10).

A ação da igreja deve ser de viver a missão a qual foi chamada: viver em serviço, e não em servilismo, de acordo com o qual o mundo define a ação da Igreja. Ela não deve se curvar diante do mundo, e sim manifestar a vontade de Deus, declarando nossa missão de discípulos de Jesus de Nazaré, o Cristo, chorando com os que choram, tendo sensibilidade às necessidades humanas, ao grito por justiça, aos sofrimentos e angustias do povo, manifestando o testemunho de Cristo que resgata, cura, liberta, transforma e salva os seres humanos, dando vida e vida abundante, trazendo a realidade do Reino de Deus agora.

A igreja precisa responder às questões advindas da sociedade secularizada, enfrentando o desafio de apresentar a realidade da adoração, o senso divino e o temor de Deus, sendo a resposta da busca por transcendência do ser humano, aos homens e mulheres modernos, manifestando a real transcendência vivida nos cultos de adoração a Deus, possibilitando um encontro intimo com o Deus vivo.

A igreja precisa enfrentar o desafio de apresentar significado ao ser humano. Para isso, a qualidade de ensino da igreja deve dizer às pessoas quem elas são, esclarecer sua identidade, mostrando sua corrupção e sua dignidade bíblica, seu valor como ser humano na doutrina da criação e redenção, sua imagem e semelhança a Deus, que foi corrompida, mas não destruída. Apresentar o valor do ser humano em Cristo, no amor de Deus, para a nossa própria auto-imagem e para o bem estar da sociedade.

A igreja precisa enfrentar o desafio de apresentar a qualidade de sua comunhão, anunciando e vivendo o Deus de amor que enviou seu filho Jesus Cristo para uma verdadeira comunhão, salvando o ser humano para uma vida de amor e comunhão, construindo uma nova humanidade, uma nova sociedade que vive o amor de Deus, ofuscando os valores e os padrões do mundo, quebrando as barreiras raciais, sexuais, nacionais e sociais, experimentando o amor verdadeiro e sacrificial, atencioso e de apoio mútuo, formando uma comunidade do amor ao próximo.

A Vida da Igreja

A igreja precisa ser ela mesma, o exemplo de comunidade que tem amor de Deus em Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador, uma vida de testemunho e encarnação do evangelho, uma nova sociedade que manifesta o Reino de Deus, uma igreja que vive em palavras e em ações. O testemunho de vida da igreja e de seus membros, sua maneira de agir, suas atitudes, sua personalidade, suas palavras, seu caráter e sua forma de relacionar com as pessoas devem ser a mesma de Jesus Cristo, pois ele se torna visível através dos cristãos. Viver a mensagem e o amor de Deus é a melhor maneira de anunciar Cristo. Viver como Ele viveu, amar como Ele amou, sentir como Ele sentia, é fazer Jesus Cristo vivo entre nós através do Espírito Santo. Ser uma igreja que resgata, cura, liberta, transforma e salva o ser humano em Cristo Jesus, é ser uma comunidade de amor que ama uns aos outros, faz visível, para o mundo, o Deus invisível.

O que Deus espera da igreja é que ela seja a sua nova sociedade, a encarnação viva do evangelho, um sinaldo reino de Deus, uma demonstração do que é a comunidade humana quando ela se coloca sob o domínio gracioso de Deus.

Em outras palavras, o propósito de Deus é que a boa nova de Jesus Cristo seja expressa tanto visualmente como verbalmente – ou seja, em palavra e em ação.[2]

Portanto, uma igreja que busca se estabelecer com teologia, estrutura, mensagem e vida numa identidade de adoração e missão, com foco na encarnação e na visão holística de sua missão como igreja, experimenta uma vida de santidade e serviço, testemunhando a vontade de Deus em Jesus Cristo. Para isso, a igreja pode estabelecer modelos de ministério integral na sociedade, sendo a presença de Cristo para os dias atuais, manifestando o Reino de Deus agora.

Para servir é importante entender que, em resposta a diferentes necessidades, existem diferentes formas de ministério, já que amamos e servimos integralmente (corpo e alma) o próximo, se preocupando com o bem estar total do ser humano, ou seja, o físico, o religioso e o sócio-político. Somos chamados a nos preocupar tanto com o bem-estar eterno da pessoa quanto com o bem-estar material.

De acordo com a vocação e o dom de cada servo, também existem diferentes ministérios. Cada pessoa contribui para o ministério de alguma forma, se engajando em e encorajando alguma atividade, em diferentes esferas de ministério, conforme Deus nos coloca, seja no nosso lar, local de trabalho, local de estudo, vizinhança, igreja local e comunidade. As pessoas são capacitadas por Deus e chamadas por Ele a se especializarem conforme a vocação e oportunidade, manifestando um ministério cristão que signifique pessoas inteiras servindo pessoas inteiras no mundo inteiro.


[1]           YAMAMORI, Tetsunao & PADILLA, C. René & RAKE, Gregorio. Servindo com os Pobres: Modelos de Ministério Integral. Tradução: Hans Udo Fuchs. Curitiba-Londrina:cEditora Descoberta, 1998. p. 30.

[2]   STOTT, John W. R. Ouça o Espírito, Ouça o mundo:  como ser um cristão contemporâneo, p. 281

 

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