Natal das Luzes

Livro de Gênesis 1. Eu lerei do verso 1 ao 3

No princípio, Deus criou os céus e a terra.  A terra era sem forma e vazia, a escuridão cobria as águas profundas, e o Espírito de Deus se movia sobre a superfície das águas. Então Deus disse: “Haja luz”, e houve luz

 

A criação do mundo, segundo a tradição judaico-cristã é uma das coisas mais fascinantes que a gente encontra na Bíblia. É claro, a nossa Bíblia está em português e a língua que nos é familiar. Mas você sabe, que eu acho, que a gente perde, as vezes, quando a gente não descobre o texto na beleza na linga ele foi escrito?

Eu estou dizendo isso porque gênesis 1 e 2 que muitos estudiosos insistem em chamar de o poema da criação na verdade, forma uma espécie de canção. É uma espécie de uma música hebraica.

As palavras de gênesis 1 e 2 formam uma sequencia de ritmos e cadências, de tal forma que sempre que alguém se deparasse com a beleza desse texto, dessa poesia, ou como você quiser chamar, mas alguém que tivesse a sensação de que enquanto Deus estava criando o mundo, Ele estava dançando.

Hoje é Natal, talvez você esperasse que eu trouxesse uma mensagem com base em Mateus 1 e 2, Lucas 1 e 2 ou até mesmo João, Isaías. É evidente que eu quero falar com você, nessa noite, sobre a chegada de Jesus ao mundo. Mas eu quero tomar liberdade de conversar sobre a chegada de Jesus a partir do relato da criação.

Eu fico pensando aqui comigo, sobre o relato da criação, como um cidadão do século XXI, acostumado a luz, um cara que gosta da cidade, de dormir sabendo que tem lugar onde as luzes estão acesas e locais estão abertos. Que vive nesse mundo cuja a tecnologia provoca mudanças constantes e incessantes.

Eu fico pensando na angustia, pelo menos a partir de onde eu vivo, que deve ter sido viver em um tempo em que tudo o que era conhecido de luz, era o sol e o fogo.

Eu fico imaginando, como um camarada de hoje, como devia ser, angustiante, difícil, viver em uma época, em que se contava com a luz do sol. Que deixava as coisas relativamente claras do dia. Dependendo de onde você estivesse. E com a luz do fogo proporcionava.

Você sabe por que eu fico pensando nisso? Porque eu preciso confessar aqui um pecado, eu não sei se, de fato, é um pecado. A escuridão ela provoca uma certa angustia. A gente fala das crianças como aquelas que tem medo de escuro. Eu não vou passar o vexame aqui dizendo que eu tenho medo de escuro. Mas mesmo os adultos sentem alguma angustia no escuro.

Na escuridão, quando a luz acaba, não é só o desconforto de não ter mais a luz. O escuro é estranho, o escuro ressuscita em gente pequena e em gente grande, assim, as piores imaginações.

Uma rua deserta e sombria, em qualquer lugar do mundo, é uma rua deserta e sombria em qualquer lugar do mundo. No lugar mais perigoso é mais sombria, que num lugar menos perigoso. Mas mesmo em um lugar menos perigoso, uma rua absolutamente deserta, naquela penumbra, ela não é aquele lugar confortável, porque nós não fomos feitos para o escuro. Nós fomos feitos para a luz.

E é por isso que eu gosto do poema da criação, de gênesis 1 e 2. Quem escreve esse texto é Moisés. Líder de um povo que por mais de 400 anos viveu, na escravidão, o que significa, escuridão. Moisés resolve contar para o mundo, mesmo sendo líder de um povo escravo, ele resolve contar a sua versão da história do universo. O que é uma audácia. Por que desde que esse mundo é mundo e que os homens saíram do jardim de Deus, escravos não tem voz nem vez. Mesmo assim Moisés diz: “eu quero contar uma história. Pra mim o mundo começou assim”  e ai ele escreve essa poesia linda. Que começa com uma convocação.

No Princípio criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia. Havia trevas sobre a face do abismo e o espírito de Deus pairava sobre as águas. Então disse Deus: “Haja Luz, e houve luz”

Pro Moisés, a história do universo começa com uma convocação. E a convocação é um chamado a existência da luz. O estabelecimento da luz que dissipa as trevas.

Essa semana, esses dias, eu li um artigo de uma revista que dizia dos 10 lugares do mundo para um nascer do sol inesquecível. Eu nunca estive em nenhum deles, espero estar em um algum, algum dia. Muralha da China, Monte Sinai, entre outros.

Bem, você pode imaginar, aquela manhã maravilhosa, que você chega na praia, cedo, e você chega antes do sol. Eu me lembro nas minhas férias, eu tinha que acordar todo dia 6h pra ir pra escola, e ai o que eu e os meus amigos fazíamos nas férias? Acordávamos 5h20 para que quando o sol aparecesse a gente estivesse lá. É um privilégio você ver o sol chegando.

Porque o Sol sempre que chega ele traz um convite. O convite pra gente viver a vida, o convite pra gente experimentar um novo ciclo, o convite pra gente renovar a esperança, o convite pra gente tentar de novo.

Você sabe que entre os judeus, entre os rabinos havia uma tradição e há ainda, que rabinos que acreditavam, que todo dia, é uma espécie de ressurreição, uma experiência de ressurreição. Porque de noite, quando nós dormimos, é como se nós estivéssemos morrendo e pela manhã, nós estamos, então, ressuscitando, ressurgindo para um novo ciclo, para uma nova história, para um novo capitulo. E é assim: a gente vive essa experiência de ressurreição, se é que a gente pode chamar assim, com muita frequência, e tudo aquilo que a gente vive com muita frequência, a gente corre o risco de transformar em um rotina e tudo aquilo que a gente transforma em rotina a gente tem o costume de banalizar.

Mas a chegada do sol é maravilhosa. Porque o sol traz consigo a notícia de que existe esperança pra gente. Sempre existe. É por isso que eu gosto daquela música que a gente canta aqui: “Sempre há de existir, um novo amanhã preparado pra mim” Sempre! É por isso que eu gosto do Salmista que diz assim: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Pra gente a história começou assim! O cosmos, em trevas, em angustia e com Deus fazendo uma convocação: HAJA LUZ! E houve luz. E ai, você pode pintar na sua cabeça a imagem que você quiser dessa luz. A minha é na praia. A sua pode ser na montanha, no rancho, você na rede.

Bem se você, não está muito familiarizado com a história da bíblia. A história da bíblia se sustenta em 4 pilares: criação, queda, redenção e consumação.

Então a bíblia começa com Moisés dizendo que Deus criou todas as coisas. Isso está na página 1, só que na página 3, mais ou menos, o cenário muda, porque Deus cria todas as coisas e a raça humana e Deus traz tudo para a luz. Porque a luz é boa, só que na página 3 dessa história a gente rompe com Deus. E o que a gente faz? A gente faz uma escolha a escolha de viver na escuridão. A gente faz a escolha de viver uma espécie de reprodução do livro mais angustiante que eu já li na minha vida: “Ensaio Sob a Cegueira” do José Saramago. Essa experiência trágica da gente caminhar sem saber o que está acontecendo.

A bíblia chama isso de viver sob o domínio do pecado. É uma terminologia teológica.  A bíblia também chama isso de viver nas trevas. Essa é, segundo a bíblia, a nossa grande tragédia.

Nós fizemos da escuridão, a nossa morada. E com toda a beleza do sol, que chega de manhã, e com todo o brilho, dessa estrela majestosa, pelo menos do ponto de vista existencial, a gente fez a escolha, de viver no escuro.

João, foi o grande amigo de Jesus, e o João é o único evangelista que fala sobre 1 homem que foi 3 vezes ter com Jesus. Esse homem se chamava Nicodemos. Sabe o que Nicodemos significa? A imagem do povo. E João faz questão de dizer que Nicodemos que é aquele que vai ter com Jesus de noite.

Esse é um retrato de quem nós somos, por causa da escolha que nós fizemos, lá atrás, a noite, a sombra, o escuro, o que não está a luz do dia, bem, você pode fazer essa leitura da forma que você quiser.

Religioso ou não. Você pode fazer a leitura a partir de categorias religiosas, percebendo como o pecado é uma realidade do mundo e você pode fazer essa leitura a partir de categorias não religiosas, percebendo como a maldade cresce, como a escuridão, do ponto de vista existencial, tem um espaço significativo na história da humanidade.

Por que a Bíblia me fascina? Porque a bíblia é a história de um povo, que mesmo tendo feito a escolha que fez, de romper com o criador da luz e viver na sombra, no escuro, é a história de um povo que é alcançado por aquele que quer trazer de novo as pessoas, para o brilho da luz.

Um dos textos mais belos na Bíblia é quando o profeta Isaías diz: “O povo que estava em trevas, viu luz” e ele repete dizendo: “e aquela gente que vivia na sombra da morte agora vive na luz” Isaías foi o profeta quem mais falou sobre o Messias. E para Isaías, quem é o Messias? Pra Isaias o Messias é aquele que traz luz para uma gente que vive em trevas. João, fala sobre a encarnação do verbo. João não narra o nascimento de Jesus, João descreve esse fato de forma mais filosófica. Mateus e Lucas descrevem o nascimento de Jesus, são as duas genealogias que você encontra. Mas João fala do verbo que se faz carne.

E nessa descrição de Joao ele fala: “ele era a luz do mundo” o próprio Jesus se apresenta, quando ele cura um cego, dando a ele vista, e diz assim: “eu sou a luz do mundo, quem crê em mim, jamais andará em trevas” Eu não sei se você consegue perceber o paralelo, Moisés dizendo que Deus criou o que há, pela convocação da luz e Isaías, João e o próprio Jesus apontando para a figura do Messias dizendo “Ele é a luz que ilumina o mundo”.

A gente precisa aprender a fazer alguns paralelos na Bíblia. Quando você olha para os evangelhos, sobretudo para o início dos evangelhos sabe o que você tem? A descrição da re-criação. Por exemplo, quando Mateus fala do batismo de Jesus, Mateus se utiliza da linguagem de Gênesis 1 da presença do Pai criador, do Espírito que paira sobre as águas e da voz que chama o filho e através do filho, todas as coisas, a existência, e descreve a mesma cena. Lembra do batismo de Jesus? Ele está lá, uma voz é dita do Deus “esse é o meu filho amado em quem eu tenho prazer” e o Espírito Santo é derramado.

Os evangelistas têm um ponto quando eles escrevem a sua história. O ponto deles é um só: a chegada do menino Jesus é a re-criação do cosmos. É por isso que Jesus se apresenta como a luz do mundo, tendo como pano de fundo a história da criação do gênesis.

O que Jesus está dizendo é: “Deus está em mim, refazendo a humanidade” e agora, porque o menino que traz a luz consigo, nasceu, ninguém mais precisa viver no escuro.

Porque ele é aquele que nos ilumina. E que nos traz para o dia, e que diz que a gente pode viver da forma como a gente foi feito pra viver.

Tem uma música que a gente canta sempre, “eu sei o sentido do natal”, o que que ele é pra mim? O que o natal representa pra você? O natal é a possibilidade de recomeçar a sua história. O natal é Deus dizendo o seguinte para os homens “eu quero recriar vocês, já que vocês escolheram se afastar da luz, eu preciso dizer a vocês: a luz veio pra ficar, e vocês não foram feitos para a escuridão. Vocês foram feitos para viver debaixo do brilho do sol, muito mais do que o astro, do sol da justiça que brilha sobre nós, que brilha dentro de nós.”

O menino na manjedoura é um recado para o mundo. É Deus dizendo assim: A história de todo mundo pode ser refeita.

E ninguém mais precisa caminhar no escuro, porque a gente apagou a luz desse lugar, mas quem manda aqui é o Eterno. E o recado do Eterno é: eu quero vocês, debaixo da luz do sol.

Não é apenas uma convocação para que você se reúna com os seus, com a igreja, também é isso e é maravilhoso. Não é um tempo apenas para que você pense na paz, também é isso, é a oportunidade de pensar no quanto a sua vida tem sido vivida, na escuridão ou na luz.

Olha para o menino na manjedoura, veja o homem que ele se tornou, o que ele fez, dois mil anos, você saiu da sua casa e veio pra cá para me ouvir falando dele. Porque no final das contas, foi ele quem mudou o curso da nossa vida. E deu a mim e você a possibilidade de vivermos iluminados pela luz verdadeira que brilha em nós, que brilha dentro de nós e que brilha a partir de nós.

Eu não vou tomar muito o seu tempo, eu só quero que você saia daqui, essa noite, carregando consigo, uma certeza, a certeza de que ninguém, ninguém, ninguém precisa mais viver no escuro. Porque a luz voltou a brilhar. E Jesus nos traz a possibilidade de vivermos um novo dia, uma nova história, uma nova esperança.

Sermão da montanha, uma das mensagens mais poderosas do mestre, foi quando ele, tendo descrito com os seus discípulos, quem era os felizes nessa terra, disse assim: “que a luz, brilhe dentro de vocês, para que os homens vejam as boas obras de vocês e glorifiquem o Pai de vocês que está nos céus.”

A minha oração, meu irmão e minha irmã, a minha oração nessa noite, é para que o seu coração seja tomado pelo brilho dessa luz.

E para que todas vezes que nós fizermos, a louca escolha, de andarmos pela escuridão, alguém venha a nos lembrar, Deus pelo seu espírito, através de alguém que nós não precisamos mais das trevas.

Elas nunca nos foram necessárias, loucos fomos quando a nós mesmos, dissemos que nós não precisamos da luz do Eterno para viver. A luz do Cristo precisa brilhar dentro de nós e sobre nós. Para que através de nós, ela ilumine, aqueles que ainda andam, nas trevas densas da escuridão.

Que a luz de Jesus seja convocada sobre a sua vida. E que a mesma voz que um dia disse: HAJA LUZ, seja escutada dentro de você, para que o brilho do Eterno inunde a sua existência e ilumine todos aqueles que estão ao seu redor.

O menino nasceu, um filho se nos deu, disse o profeta. Em Jesus de Nazaré, nós podemos ver, Deus como ele é e nós como devemos ser, a luz do Pai que deve brilhar dentro de nós, para iluminar todos aqueles, que nesse mundo, ainda sofrem perdidos na escuridão.

Queria que você fechasse os seus olhos e que você orasse ai no seu lugar, e eu queria encorajar você a agradecer a Jesus pela luz que brilha dentro de você. Eu queria encorajar você, nesse culto, de exaltação a Jesus, eu queria encorajar você a agradecer a Deus, porque há esperança para a nossa história. A esperança para aqueles que estão na escuridão, ao nosso redor, por um razão essencial, nós fomos tirados das trevas.

Talvez 2017, não te tenha sido um ano mais fácil, a luz continua brilhando dentro de você. É possível que 2017 tenha sido, para você, um ano extremamente desafiador, mas a luz continua brilhando dentro de você.

Porque essa é beleza do evangelho. A luz que um dia foi acessa, dentro de nós, jamais, em hipótese alguma, será por ninguém, apagada, e que você celebre e agradeça a Cristo, pela chegada do Messias, o nosso redentor, que trouxe luz, paz e justiça para  a nossa história.

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