Sem pedras nas mãos

Introdução
A nossa vida é marcada pela dinâmica dos relacionamentos. A gente se relaciona com os  mais variados tipos de pessoas. Pessoas amáveis, pessoas não tão amáveis, pessoas que nos fazem carregar as melhoras lembranças, pessoas que fazemos questão de esquecer; enfim, o fato é que não fomos feitos para vivermos sozinhos; fomos criados para viver com outras pessoas; e viver com outras pessoas é difícil demais.

pedras na mao[Texto Bíblico] João 8.1-11
“Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério.
Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? “ Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo.
Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele.
Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou? “ “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”.

[Ilustração]
Segunda-feira, 5 de maio de 2014
Mulher espancada após boatos em rede social morre em Guarujá, A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morreu na manhã do dia (5), dois dias após ter sido espancada por dezenas de moradores de Guarujá, no litoral de São Paulo. Segundo a família, ela foi agredida a partir de um boato gerado por uma página em uma rede social que afirmava que a dona de casa sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra.
O espancamento aconteceu no bairro Morrinhos no início da noite do sábado (3). A mulher foi amarrada e agredida e, segundo testemunhas que acompanharam a agressão, os moradores afirmavam que a mulher havia sequestrado uma criança para realizar trabalhos de magia negra.

Eu queria, hoje, falar sobre isso, sobre a dinâmica dos relacionamentos, sobre erros, acertos e perdão.

A falta de amor e piedade não permite que escribas e fariseus perdoem quem errou.
Acabou uma grande festa, a cidade inteira passou uma semana inteira movimentada, pessoas na rua, novas amizades, muita música, pessoas sorrindo, se divertindo.
No oitavo dia no entanto, ao invés de calmaria que se esperava, um tumulto é criado. Entre os gritos e acusações ouve-se também um choro. Uma pessoa se excedeu, uma mulher foi pega em um ato criminoso. Ela foi pega cometendo um adultério, homens bravos, furiosos, querendo resolver a questão com as próprias mãos, eles a pegam pelo braço e jogam ela no chão, na frente de Jesus.
A verdade é que uma mulher errou, ela traiu a confiança do seu marido, ela traiu a confiança da sua família, ela traiu a confiança dos seus amigos. Ela cometeu um dos pecados mais graves que alguém poderia ter cometido. A lei era muito clara, os seus acusadores tinham o apoio da lei. Escribas e fariseus tinham todas as razões do mundo para condená-la. Aquela mulher merecia uma pena de morte.
Uma multidão olha para Jesus depois que os que a trouxeram e a jogaram no chão questionam a Jesus sobre o que deve ser feito com aquela mulher.
Os escribas e fariseus pedem que Jesus emita a sua opinião. Querem saber se Jesus era a favor da Lei de Moisés.
Para aqueles homens envolvidos, não importa o nome daquela mulher, não importa nem mesmo quem cometeu o pecado junto com ela. Para o cumprimento correto da lei, o homem infiel precisaria estar presente; mas aqueles homens queriam, em cima do erro daquela mulher, culpar a Jesus também.
Dedos apontados para aquela mulher e para Jesus. Uma já havia sido culpada. Ainda queriam culpa a Jesus.
Um erro, um pecado grave foi cometido. Uma mulher sem nome. Não importa o nome e a história da pessoa, o que estão em busca é apenas da “justiça” dos homens. Culpar uma mulher que errou e preparar uma armadilha para Jesus.
A religiosidade produzida no coração daqueles homens não permitia que eles olhassem aquela mulher com compaixão e piedade. A religiosidade produzida no coração daqueles homens fazia com que eles olhassem para Jesus com o objetivo de encontrar uma culpa no julgamento dele também. A falta de compaixão e piedade resseca o coração dos religiosos.

A falta de amor e piedade não permite que perdoemos quem errou.
Muitas vezes a nossa vida vai tomando caminhos assim, nosso coração vai se tornando um coração de fariseu. Perdemos a sensibilidade de olhar no olho das pessoas, de ouvir que elas tem a nos dizer. Julgamos de maneira precipitada, mesmo tendo a razão do nosso lado.
Com o passar dos anos, uma vida religiosa vai criando em nós uma lente e através dessa lente vemos as pessoas apenas com seus erros e com seus defeitos.
Perdemos a capacidade de produzir em nosso coração a compaixão, perdemos a capacidade de amar as pessoas, mesmo através dos seus erros. Produzimos em nosso coração a capacidade de produzir julgamentos e rótulos. Com o passar do tempo temos mais facilidade e agilidade em apontar o dedo do que estender a mão para quem foi humilhado e envergonhado pelo erro.
Pegar uma pedra tem sido mais fácil do que acolher, abraçar e confortar aquele que errou. Não precisamos de palavras inteiras, para acusarmos, para julgarmos e para condenarmos, bastam meias palavras. Estamos sempre em busca do erro do outro.
Temos mais força para jogar uma pedra naquele que errou do que uma palavra que faça uma mudança na vida. Aprendemos a culpar, a julgar, a mostrar o erro, mas não aprendemos a perdoar o que errou.
A falta de perdão gera me nós uma falta do amor de Deus em nossos corações. A falta do amor de Deus produz em nossos corações o egoísmo. O egoísmo que nos faz esquecer o nome da “mulher adúltera”; egoísmo que nos faz olhar para as pessoas, egoísmo que faz com que a gente se relacione com as pessoas meramente como instrumentos da nossa vontade. Os fins justificam os meios.
Não somos muito diferentes dos escribas e dos fariseus. Assim como para eles, essa mulher não tinha nome, personalidade, coração, sentimento, nem emoções; não era mais que uma peça no jogo com o qual buscavam destruir a Jesus. Nós também usamos as pessoas, é errado ver as pessoas como coisas; como algo mau, é desumano e anticristão ver as pessoas como coisas. Usá-las de acordo com as nossas vontades e rejeitá-las conforme nossas necessidades.
Em nossa boca pronunciamos com facilidade:  Culpado!
É pouco provável que os escribas e fariseus soubessem o nome dessa mulher. Para eles, essa mulher não era mais que o caso de alguém que tinha cometido adultério na forma mais desavergonhada e a quem podiam usar como instrumento e ferramenta para cumprir os seus propósitos. No momento em que as pessoas se transformam em coisas, morre o espírito do cristianismo.
No momento em que o cumprimento da lei se torna mais importante que o perdão, o cristianismo morre em nossos corações.

O perdão que Jesus oferece à mulher, muda a sua vida e a vida dos religiosos.
Ainda bem que o ponto final dessa história não é contada pelo escribas e fariseus. Se dependesse deles, a palavra “culpada” estaria sendo dita e pedras seriam jogadas naquela mulher.
Mas Jesus faz um desafio na vida dos que se diziam mestres da lei. Jesus os ensina a olhar para suas vidas, para suas atitudes. Atitude de olhar primeiramente para a maneira como estão conduzindo as suas vidas, olhar para os seus erros, olhar para as suas palavras e intenções. Enxergar aquilo que muitas vezes eles não queriam que ninguém soubesse. Eles escondiam seus erros, mas descobriam os erros dos outros. Uma pergunta que gera uma mudança de atitude e uma mudança de valores: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra”.
Sons de pedra no chão, começando pelos mais velhos, que dão o exemplo para os mais novos, um a um, vai largando a sua pedra.
Diante de Jesus todos reconhecem seus erros, suas falhas, seus pecados. Os escribas e os fariseus poderiam esconder das pessoas os seus erros, as falhas e os mais graves pecados, mas diante de Jesus isso era impossível.
Em meio a toda violência de palavras, de ações, em meio a todo tumulto, Jesus toma uma atitude diferente. Enquanto os mestres da Lei erguem a voz, o Mestre fica em silêncio. Enquanto os mestres da lei  erguem os braços, o Mestre abaixa-se e começa a escrever na areia.
Jesus demonstra o seu amor pelas pessoas. Jesus demonstra o seu amor por aquela mulher, assim como ele encontrou aquela mulher samaritana no pior momento da sua vida e deu-lhe uma nova oportunidade, Jesus faz o mesmo com essa mulher adúltera. Se antes todos a condenavam, Jesus diz a ela: “Eu também não te condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”.
Isso mostra o caráter de Jesus: de curar as feridas, de guiar e ajudar as pessoas. Jesus sempre dá uma nova chance para as pessoas. Homens e mulheres, cegos, surdos, paralíticos,  leprosos, pecadores, uma menina morta, um homem que vivia no cemitério; todos tem uma segunda chance, todos tem uma oportunidade de recomeçar as suas vidas.
Mas Jesus pede uma mudança de atitude dessa mulher também. Ela tinha duas opções: Ela poderia voltar para seus velhos hábitos ou ela poderia recomeçar sua vida nova, junto com Jesus.
Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus” João 3.17-18
E assim como a mulher samaritana; assim como Zaqueu a essa mulher tem a oportunidade de recomeçar a sua vida.

O perdão que Jesus nos oferece, muda a nossa vida e a nossa religiosidade.
Assim como aquela mulher nós precisamos nos apropriar o perdão que Jesus oferece a cada um de nós e devemos também olhar os que erram com as lentes de Jesus.
Quando nos encontramos com alguém que errou, nosso primeiro sentimento não deve ser “Eu farei de tudo para que sofra pelo que você fez!” Mas a nossa atitude deve ser: ”O que posso fazer para ajudar esta pessoa? O que posso fazer para fazer com que ela volte ao bom caminho? O que posso fazer para apagar as conseqüências deste erro?” Em poucas palavras, sempre devemos oferecer a outros a mesma compaixão que gostaríamos que nos oferecessem se nos encontrássemos em uma situação semelhante.
Jesus oferece o perdão a cada um de nós, perdão que foi pago na cruz, independente de quão grave foi o nosso erro. Porém Jesus nos pede uma mudança de atitude, mudança de vida. Compaixão que gera uma nova vida, uma nova oportunidade. Aquele que errou, que não erre mais.
Compaixão que gera em nós a oportunidade de olhar o outro, não com nossos acertos e mostrando os erros do outro, mas compaixão que gera em nós a possibilidade de olhar e de estender a mão e ajudar e ser agente de transformação.

[Ilustração] Um dia, numa praça, um jovem exibia seu coração, o mais bonito daquela cidade. Uma grande multidão se aproximou e admirou aquele coração, pois era perfeito. Não havia nele uma única marca que lhe prejudicasse a beleza. Todos reconheceram que realmente era o coração mais bonito que já haviam visto. O jovem estava vaidoso e o ostentava com crescente orgulho.
De repente um velho homem, montado num cavalo, surgiu no meio da multidão, desmontou e bradou:
– Seu coração nem de longe é tão bonito quanto o meu!
O jovem e a multidão olharam para o coração do velho homem. Batia fortemente, mas estava cheio de cicatrizes. Havia lugares onde faltavam pedaços e também partes com enxertos que não se encaixavam bem, que tinham as beiradas salientes. A multidão se espantou.
– Como pode ele dizer que seu coração é mais bonito?
O jovem olhou para o coração do velho homem e disse, rindo:
– O senhor deve estar brincando! Compare seu coração com o meu e veja. O meu é perfeito e o seu é uma confusão de cicatrizes e remendos .
– Sim – disse o velho homem. – O seu tem a aparência perfeita, mas eu nunca trocaria o meu por ele. As marcas representam pessoas a quem dei o meu amor. Eu arranquei pedaços do meu coração e dei-os a elas e, muitas vezes, elas me deram pedaços de seus corações para colocar nos espaços deixados; como esses pedaços não eram do tamanho exato, hoje parecem enxertos feios e grosseiros, mas eu os conservo como lembranças do amor que dividimos. Algumas vezes eu dei pedaços do meu coração e as pessoas que os receberam não me deram em retorno pedaços de seus corações . Esses são os buracos que você vê. Dar amor é arriscar. Embora esses buracos doam, eles permanecem abertos lembrando-me do amor que tenho por aquelas pessoas, e eu tenho esperança de que um dia elas me dêem retorno e preencham os espaços que ficaram vazios. Agora você consegue ver o que é beleza de verdade?
O jovem ficou em silêncio, com lágrimas rolando por suas faces. Caminhou em direção ao velho homem, olhou para o próprio coração e arrancou um pedaço, oferecendo-o com as mãos trêmulas. O homem pegou aquele pedaço, colocou no coração e tirando um outro pedaço do seu, colocou-o no espaço deixado no coração do jovem. Coube, mas não perfeitamente, já que as beiradas eram irregulares. O jovem olhou para o seu coração, antes tão perfeito, mas agora muito mais bonito do que sempre fôra, já que o amor do velho homem entrara nele.
Diante da multidão que os observava em respeitoso silêncio, eles se abraçaram e saíram andando lado a lado, seguidos pelo cavalo, cujas patas batendo no solo emitiam o som de corações pulsando …

Conclusão
O que é que seu coração demonstra hoje? Espero que seja a a possibilidade de uma segunda oportunidade. É como se Jesus tivesse dito à mulher: “Eu sei que você fez coisas muito más, mas a vida não acabou; dou-lhe outra oportunidade, a de se redimir.”
Quais são as pedras que você carrega hoje? Pedras para acertar quem te ofendeu, quem traiu a confiança que você depositou, quem te magoou, quem falou contra você. Independente do que fizeram você tem a oportunidade de fazer como Jesus: Perdoar!
Alguém escreveu estes versos:
Como desejaria que existisse um lugar maravilhoso,
Que seria o País para Voltar a Começar,
Onde todos nossos enganos e todas nossas tristezas E toda  nossa dor egoísta
Pudessem ser abandonadas como um saco velho na porta, E não o voltássemos a usar jamais.

https://www.youtube.com/watch?v=4EJzSBhKICc

Que Jesus nos ajude a largar as pedras das nossas mãos e perdoar, abraçar e amar.

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