Relacionamentos Descartáveis

 

Nas últimas semanas tenho refletido sobre o assunto.


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Em minha vida e dinâmica pastoral e ministerial tenho percebido que vivemos o momento do descarte. Parece que ninguém mais está disposto a contemporizar, a rever, a entender. Tomados pelo imediatismo, busca-se soluções rápidas para todos os tipos de conflitos. Ninguém mais está inclinado a ouvir, a ceder, a tentar olhar pelo prisma do outro.

Em uma sociedade onde impera a oferta do prazer imediato, descartamos facilmente o que nos causa qualquer pequeno nível de insatisfação.

Como vivemos na cultura da não-reflexão, tudo o que demanda um pouco de esforço para entender, parece ameaçar. “Para quê vou me dar esse trabalho?” Next!  E assim a fila anda. E rápido! E avança-se para uma próxima etapa, um próximo relacionamento. Porém, o que se está levando é a antiga pessoa cheia de resquícios de insatisfações anteriores não trabalhadas, funcionamentos que deveriam ter sido explorados, situações que deveriam ser entendidas. As pessoas não se olham e não se permitem olhar.

Trocamos nossas amizades por não querer entender o outro. Queremos tomar posse do outro e se a atitude for algo que nos desagrada limamos do nosso rol de amizades, acabamos por nos tornar “juízes” da amizades, conhecedores do bem e do mal.

Inúmeras vezes percebo a incapacidade de casais, por exemplo fazerem este tão necessário exercício, fundamental não para uma convivência harmônica, mas sim para uma convivência feliz. Porque pouco importa casais não brigarem e viverem um relacionamento morto – de tudo -. Qual o mérito que existe? Nenhum! Lembrando Afonso Romano de Santana: “Existem casais ‘harmônicos’, (grifo meu), que vivem 25 anos lado a lado, dormindo juntos, na mesma cama, e um não sabe o que o outro sonha“.

Não existe nenhum impedimento em ‘deletarmos’ (para ilustrar bem o que ocorre hoje), pessoas de nossa vida. Mas, até para separar, temos que ‘separar bem’, conscientemente de que é isso que queremos e que todas as possibilidades para reverter a situação já foram tentadas. Caso contrário, corre-se o risco de ‘trocar seis por meia dúzia’; daqui a pouco estamos repetindo os mesmos erros com nova figurinha.

No conflito reside muitas vezes nossa chance de crescer, de melhorar, de seguir adiante com novos e melhores propósitos. Se fugimos de encarar nossos problemas, se não nos inserimos no processo, fica difícil avançar; situações negativas serão sempre neuroticamente repetidas em um desgaste sem fim. Perpetua-se assim, uma busca incessante por situações adequadas, ideais, irretocáveis. Cabe refletir: Será que elas existem? Ou a vida na sua dinâmica comporta contrastes que, apesar de aparentemente trazerem uma carga negativa, estresse, aborrecimentos, contribuem para nossa realização, tirando o tédio das coisas pretensamente perfeitas?

Concluindo: Na verdade, é nossa incompetência em lidar com a frustração que nos torna imensamente infelizes.

 

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