Mãe conta como internet ajudou a superar doença e morte da filha de 7 anos

As redes sociais não servem apenas para curtir páginas de zoeira, marcar eventos e compartilhar imagens de gatos. Há fins mais nobres, como o alcançado pela manauara Carolina Varella, 30. Ela usou essas conexões digitais para enfrentar a doença da única filha, Ana Luiza, que morreu em 2011 aos sete anos. Pela forma como fez uso da rede em uma situação tão delicada, Carolina foi destaque no YouPix Festival, realizado na semana passada em São Paulo.

A história começou há dois anos, quando Ana Luiza foi diagnosticada com câncer. Mãe e filha deixaram então Manaus rumo a São ana-luiza-em-foto-do-aniversario-de-7-anos-dois-meses-depois-ela-foi-diagnosticada-com-cancer-1373468511810_300x300Paulo para tratar da doença.

Na ocasião, Ana Luiza precisou de sangue para um procedimento médico. Carolina fez uma campanha pelo Twitter para atrair doadores e foi longe: seu caso virou destaque na rede com a hashtag #ForçaAnaLuiza e ajudou a lotar a capacidade do banco de sangue A.C. Camargo em São Paulo, em pleno Carnaval de 2011 – época do ano em que os hemocentros são menos procurados por doadores.

Paralelo a isso, Carolina mantinha o blog Vida Normal para informar familiares e simpatizantes do caso sobre o estado de Ana Luiza. A página não só ajudou a mãe a manter as pessoas a par do estado da menina, mas também a lidar com o tratamento da doença e, mais tarde, com a morte de sua filha única em 8 de julho de 2011. A página com os relatos de Carolina já soma mais de 800 mil visitas.

“O apoio dos amigos e de pessoas que já passaram pelo problema me ajudaram a seguir firme e a me trazer conforto para enfrentar da situação.”

Hoje, Carolina continua usando a web para divulgar informações sobre o tratamento de câncer como o Instituto Alguem, organização cofundada por ela. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por e-mail ao UOL Tecnologia.

UOL Tecnologia – Como surgiu a ideia de criar uma campanha nas redes sociais para ajudar sua filha?

Carolina Varella – Em setembro de 2010, Ana Luiza foi diagnosticada em Manaus com um tipo raro de câncer. Por falta de tratamento na região Norte, viemos para São Paulo em busca de um centro especializado. Após seis meses de tratamento, ela precisou ser submetida a um transplante de medula óssea – procedimento igual ao do ator Reynaldo Gianecchini. Na ocasião, ela teve de fazer uma transfusão com um grande volume de sangue.

Vieram familiares e amigos de Manaus para doar, mas eles não podiam, por vivem em uma região onde a malária é endêmica. Só me restou apelar para as redes sociais. Fiz um tuíte e enviei um e-mail para diversos amigos jornalistas, tanto em Manaus, quanto em São Paulo, esclarecendo nossa necessidade e implorando por ajuda.

Foi assim que o #ForçaAnaLuizaalcançou o primeiro lugar nos Trending Topics [assuntos mais comentados] do Twitter no Carnaval de 2011.

carolina-varella-mae-de-ana-luiza-e-diretora-geral-do-instituto-alguem-durante-participacao-no-youpix-festival-1373468616759_300x300UOL Tecnologia – Expressar na internet a situação pela qual sua filha passou a ajudou a lidar melhor com o que aconteceu?

Carolina – Sim. E não somente durante o tratamento, mas também após o falecimento de minha filha. Assim que a Ana Luiza iniciou o tratamento, resolvirelatar em um blog o dia a dia dela para que familiares e pessoas interessadas pudessem acompanhar a evolução dela.

Os textos publicados tomaram uma proporção inimaginável. O apoio dos amigos e de pessoas que já passaram pelo problema me ajudou a seguir firme, trazendo conforto para o enfrentamento da situação.

UOL Tecnologia – Como era a reação da sua filha à mobilização? Você a informava sobre a repercussão?

Carolina – Ana Luiza tinha apenas 7 anos, mas já lia e escrevia muito bem. Ela sabia e acompanhava através dos meus perfis no Twitter e Facebook toda a movimentação. Ganhou muitos mimos e presentes de diversas partes do Brasil.

UOL Tecnologia – Qual é a importância da internet para o Instituto Alguem? É o principal meio de vocês entrarem em contato com as pessoas que precisam de ajuda e doadores em potencial?

Carolina – A internet é a grande aliada do Instituto Alguem, assim como foi para a Ana Luiza. A instituição ainda não tem uma sede administrativa, mas já beneficiou 43 crianças com câncer em um ano e nove meses de existência.

UOL Tecnologia – Como as famílias chegam até vocês?

Carolina – Os contatos são feitos por meio da internet e as famílias chegam até nós por meio de redes sociais ou indicação de médicos que conhecem nosso trabalho.  As páginas no Facebook, Twitter e Instagram são aliadas importantes quando necessitamos de algo urgente, como passagens aéreas, agasalhos, doações de sangue ou voluntários para determinadas atividades.

UOL Tecnologia – Como funciona o processo para quem precisa de ajuda?

Carolina – O processo é simples. Após um diagnóstico ou suspeita de câncer, os médicos que conhecem nosso trabalho entram em contato conosco, solicitando apoio para a criança que precisa realizar tratamento fora do Estado do Amazonas.

Nós auxiliamos nos trâmites burocráticos junto aos órgãos responsáveis e hospitais, verificamos a existência de vagas em casas de apoio, fazemos aquisição de passagens aéreas para a criança e o acompanhante. Se for preciso, doamos agasalhos, damos ajuda de custo para alimentação e contatamos voluntários para fazerem o transporte dessas pessoas.

UOL Tecnologia – Após esses quase dois anos, qual balanço você faz da instituição?

Carolina – Acredito que o Instituto Alguem tem feito a diferença na vida de dezenas de crianças que não tem tratamento em sua cidade natal.

Nosso maior objetivo é dar dignidade às crianças com câncer da região Norte, fazendo nossa parte para tentar mudar as políticas públicas referentes ao tema em nossa região.

Completaremos dois anos em outubro de 2013. Ainda não temos uma sede administrativa, nem parcerias com o governo ou prefeitura. Mas acreditamos na importância de nossas atividades na vida de cada família beneficiada e seguiremos firmes com a convicção de que é possível mudar essa realidade.

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